Beribéricas


dos pactos
October 5, 2009, 3:24 am
Filed under: devaneios, di valore, inefáveis

Hoje é domingo. Quase meia noite. A noite me olha, e eu olho ela: Somos dois apaixonados.

Sobre a escrivaninha chinesa uma Perrier vazia, o poeirento Aristóteles aberto e o cinzeiro cheio.

-Deus pode ser inquirido?

-Não, Ele não pode.

“Eis-me aqui, um velho em pleno mês de seca”. Eliot est arrivé.

Escuto uma criança barulhando, ela balbucia coisas incompreensíveis. Agora ela desce devagar. A escada é de mármore preto. No andar de cima há luz, mas embaixo não há; conforme ela desce, o escuro a engole. Ela gosta do escuro – o escuro que não gosta dela.

E também o diabo nos visita. Esse estranho, esse estrangeiro. Não bate para entrar, não é dado à cerimônias. Abre a porta e vai entrando. No mais íntimo e no mais próprio. Aqueles dois olhos postos assim: embebidos em virulenta dileção e queda.

Encontro quietude no coração de um gerânio. Com meus dedos o abro gentilmente. É de uma doçura infinita, como o Impromptu IV de Schubert, como quando cheiro minha própria pele, como o balão que paira perdido entre os telhados.

Seja perspicaz: toda imagem tem seu negativo, e tudo aquilo que ela não mostra também faz parte dela.



S.
April 6, 2009, 3:12 am
Filed under: das neuroses, inefáveis, novidades

Eu não devia te revelar isso, mas essa chuva caindo larga, esse uísque que desce fácil, o abajur bruxuleando… essas coisas colocam qualquer um putamente comovido com o estado de tudo, com a falta, a indecisão e, principalmente, com o que teima em ficar sem nome.

Por que é tão normal que a folha caía, ou o cigarro acabe, ou que as crianças brinquem? Nunca entendi muito bem isso de as coisas serem tão comuns, passado alguns anos e certo embrutecimento.

O que faremos afinal, S.? A resposta vem fácil se pensarmos logicamente. Mas nenhum de nós parece estar muito seguro de como esses passos tão abstratos funcionam.

Ontem, voltando pra casa, eu encontrei novamente aquele senhor que me abordou no café, mês passado. Conversava, com amigos talvez, ou talvez passasse por ali e tenha, muito audacioso, se permitido sentar com os desconhecidos, como fez comigo, mês passado. Talvez algum deles fosse da família, talvez fosse casado com algum dos dois e gostasse do flagelo, como eu gostei do flagelo, no mês passado.

Eu não sei, S.. Por quê? Eu que sempre tive tanta certeza? Eu, o atrevido, a tocar os pés pelas mãos, e a andar sempre com o peito aberto, todo entranha, todo exposto, feito uma ostra a dar-se pras funduras descontínuas.

Eu já te disse isso antes, repito, reitero: meu coração está aí para quem quiser morder. Olha!, ele é tão carnudo, tão cheio de si, bate tão ritmado entre épuras coaguladas. Não me incomodam aqueles que olham e rejeitam, nojo ou vegetarianismo, medo ou saciedade. Me incomoda que peguem nele, e que apalpem, luxuriosos, apertando nos montículos cavernosos ou sentindo as arroxeadas palpitações, como tu tens feito. Porra, eu não tenho muita paciência pra preliminares dessa ordem.

“Literatura e Erotismo”, “Leremos Bataille…”, “Lacan e Freud também”: Olha que próspero. Vão dizer o quê? Que se escreve com o corpo? Que se lê com o corpo? Que no ato há a experimentação do contínuo, por dois sujeitos descontínuos? Que se foda.

Escuta, o que faremos afinal, S.? É continuar com esse jogo empatado, entre almíscar, suor, a solidão tão convencional e as elucubrações mais ou menos peculiares de entender os sujeitos e suas motivações… Hnn… Que merda, hein. De que adianta estudar os sujeitos, o comportamento, o inconsciente (tanto faz, ao cabo é tudo a mesma coisa) sem saber se mexer, sem saber pensar ou tomar uma decisão.

Vai ficar tudo em família. Quem sabe uma família nova? Que te parece?

Da concretude à abstração. Da concretude à abstração.

Olhasse os Bosch que te mandei? São lindos, né?!

Vou atender o telefone, já venho.



these days
February 21, 2009, 4:23 pm
Filed under: das neuroses, devaneios, inefáveis

   agora; que é chegada a hora.

   quando o tempo repousa as mãos no fim, encenando em gestos delicados o it’s time. E então, na apreensão mais apurada das coisas, como não imaginar (pelo menos nessa vez) que as expectativas e os sonhados sistemas deram tudo aquilo o que poderiam dar? E que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa? Mas talvez seja o caso de não escolher e num completo imobilismo (que já presupõe ficar) tentar tudo outra vez – e será que tenho, realmente, o poder de futricar no que se esquece?

   e agora, depois de parado, depois de ter certeza de que esse não é o percurso, depois de ter pela primeira vez me virado e alterado todo esquema, depois de ter sentido (também pela primeira) que é chegada a hora de gastar as noites como se gasta dinheiro em casacos novos (sem aparente culpa, sem aparente compromisso com o que quer que seja, sem ter ruminado as consequências por mais de cinco segundos) – depois de tudo isso só consigo constatar, pateticamente, que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa. E será que ainda percebo e compreendo e posso demonstrar (a vós, que teimam em carcomer essas palavras) que finalmente compreendo e que, para tanto, um dia percebi aleatoriamente os interstícios e os sinais que se escondiam? E que hoje os percebo incessantemente porque já compreendi?

   sim, é claro; me dizem doutores em suas cuidadosas e pertinentes colocações. E me diz o mesmo, com calor e com simplicidade, a manhã de todo dia se derramando pelas cortinas claras. Mas e agora? que não é manhã, nem se estica a tarde, nem se apaga a noite, e agora? onde isso tudo, essa lógica sazonal de giros e movimentos não faz mais sentido? agora, quando tudo o que importa são os olhos olhando para esse agora e vendo eles mesmos, reduplicados, se enxergando – e avisando: olhe esses sinais com mais cautela, com mais demora.

   são as velas que se apequenam enquanto ardem, são as músicas que vão pouco a pouco se engolindo, é o corpo que a cada dia murcha e se esvazia.

   e agora, tendo constatado cada importante colocação, ficou tão fácil pensar no que foi dito quando mantenho dentro e não engendro em palavras. E agora, quando eu me vejo rindo, rindo muito mais alto e muito mais forte tanto mais me afundo em mim. E agora, que eu vejo, que eu reconheço a única coisa que eu neguei e encarcerei melancolicamente. E agora eu sei, o que fazer, se fico ou se vou; porque sou eu que decido.



encore
February 7, 2009, 3:06 am
Filed under: crí(p)ticas, devaneios, inefáveis

   Aconteceu. Ele tinha sim uma melancolia por detrás dos olhos e, diariamente, mais que todos, muito mais que todos, experimentava o tédio, o ilustre tédio da vida. As razões não interessam, elas não suprimem a grande crueldade, elas não reencenam o espetáculo daqueles dias. E que belo espetáculo, que pacto fáustico que selamos. Só quem amou, custosamente, quem amou sem nunca esperar um olhar, mesmo que tristonho, em troca, sabe. Só quem amou sabe dessa verdade, que espocava constantemente na sua presença.

   Na minha casa os abajures continuam ardendo, noite adentro, longa noite adentro. A novidade são as cortinas. Como foi doído levantar essas cortinas sozinho. Parece-me que elas foram colocadas no momento certo. Parece-me que se ele ainda estivesse sob o risco de ser convocado – como prometeu – a subí-las, então ele não teria as colocado ali no alto, ou eu não teria lhe convocado pra essa tarefa. Parece-me, agora, que colocar as cortinas, muito sábias, muito pertinentes, porque não cobrem tudo nem mostram tudo, mas possibilitam ‘entrever’, parece-me agora que colocá-las foi uma tarefa que tive que fazer sozinho, com esta maldita mão dentro do meu peito a torcer-me os ocos e os cheios. Deixei um alfinete numa cortina, pra que eu não me esqueça, pra que tudo se presentifique belamente. Porque esquecer, como muitos têm tentado fazer, é de uma estupidez que me devasta e me deixa com ânsias de pensar em verbalizar, em meio às caras e os esgares que me encontram nas ruas elegantes, mil impropérios cujos conteúdos deletérios assustariam meus pais, levando-os a se questionarem imediatamente o tipo de educação que me legaram. Até isso eu fico tentado a fazer, por ele.

   Aconteceu. Ele tinha, sim!, que passar por nós assim ligeiro e às gargalhadas, dando um ponto, com fio grosso, no murcho coração de cada um pra, depois, agora (o tempo… tanto faz – e isso eu aprendi com ele, não com McTaggartt), pra puxar bem firme, bem forte, sei lá de onde, sei lá de que altura ou de que fundura, fazendo doer um pouco. Ele tinha: dói, mas tudo foi tão asperamente bonito, tão desajeitadamente bom…

“E não esqueço
que deitei em tua cama
em teu berço:
Eu sei teu preço, eu te conheço,
meu oportuno herói”


noite #1
December 28, 2008, 2:32 am
Filed under: di valore, inefáveis

champanhe morno, cigarreira cheia, meia luz e billie holiday é tudo que eu preciso agora.



hilda hilst
December 9, 2008, 6:52 pm
Filed under: inefáveis, outrem

 Rios de rumor:

meu peito

te dizendo adeus.



dimanche
November 25, 2008, 12:05 pm
Filed under: crí(p)ticas, inefáveis

do sublime ao hediondo no decorrer de uma semana.



do silêncio
October 15, 2008, 4:08 am
Filed under: crí(p)ticas, inefáveis

     E me dizes que não fuma, que não bebe, que não ficas ocioso, que não, que não. Mas me dizes que estás confuso, que ele te escondia, que o teu eu é por demais abstrato, por demais indeciso, que vais a Paris, a Boston, que vais, que fazes, que te ocupas, que desapareces… Eu sei. Não duvido. Só me pergunto, hora a hora, dia a dia, que arame é esse no qual me pendurasse? Do qual eu pendo, esperando… Secar? Cantarolas N. K. Cole enquanto seco? Se te dou travesseiros, por que, diabos!, não deita neles tua escura cabeleira? É, vai!, deita neles e não te escondes por dentro das fronhas (porque não te quero escondido, te quero espraiado, evidente).

 

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

(Hilda Hilst)



#1
September 26, 2008, 2:15 am
Filed under: inefáveis

Tô estudando. É isso. “Louca, porém erudita” disse dia desses um amigo meu. Eu achei engraçado, ele também, rimos, “ha-ha”, que lindo e por aí vai. É verdade – você enlouquece quando estuda filosofia; eles te mantém num estado de paranóia induzida. É necessário, do contrário você não decola nessa inútil trajetória. Lacan, num texto apresentado em um dos seus famosos seminários, dispende algumas linhas falando sobre o estranho e maníaco processo filosófico. É um bom texto, “A agressividade em psicanálise” se chama, eu acho.

A filosofia morreu, só se trabalha com lógica e história da filosofia. Fora isso ela virou o necrológio, mortuário, cemitério – e nós, alguns mais necromantes que outros, estamos ali, dançando lindamente sobre os ataúdes aristotelicamente selados e as catacumbas kantianas. Ficamos com as acrobacias lingüísticas, as balacas analíticas, as afetações literárias e as muitas e enriquecedoras leituras 1/2. E o mais divertido (rufem os tambores, levantem as cortinas, eis a pièce de resistence) a mentirinha inconsciente. No diminutivo porque dá vazão cômica à virulência característica que a constituí. Ela se esgueira no teu discurso, fazendo com que tu engendre as mais estapafúrdias proposições. E a reviravolta: ela convence bem, muito bem, seja você, seja o que te escuta. E a gente vai levando, como diria o velho.