Beribéricas


dos pactos
October 5, 2009, 3:24 am
Filed under: devaneios, di valore, inefáveis

Hoje é domingo. Quase meia noite. A noite me olha, e eu olho ela: Somos dois apaixonados.

Sobre a escrivaninha chinesa uma Perrier vazia, o poeirento Aristóteles aberto e o cinzeiro cheio.

-Deus pode ser inquirido?

-Não, Ele não pode.

“Eis-me aqui, um velho em pleno mês de seca”. Eliot est arrivé.

Escuto uma criança barulhando, ela balbucia coisas incompreensíveis. Agora ela desce devagar. A escada é de mármore preto. No andar de cima há luz, mas embaixo não há; conforme ela desce, o escuro a engole. Ela gosta do escuro – o escuro que não gosta dela.

E também o diabo nos visita. Esse estranho, esse estrangeiro. Não bate para entrar, não é dado à cerimônias. Abre a porta e vai entrando. No mais íntimo e no mais próprio. Aqueles dois olhos postos assim: embebidos em virulenta dileção e queda.

Encontro quietude no coração de um gerânio. Com meus dedos o abro gentilmente. É de uma doçura infinita, como o Impromptu IV de Schubert, como quando cheiro minha própria pele, como o balão que paira perdido entre os telhados.

Seja perspicaz: toda imagem tem seu negativo, e tudo aquilo que ela não mostra também faz parte dela.



véspera
April 18, 2009, 1:59 pm
Filed under: di valore

Takes two to tango.



que ousadia! me fecharem as portas enquanto chuvisca
March 9, 2009, 1:19 am
Filed under: das neuroses, devaneios, di valore

    Papai, que dor. Eu sei bem

   que viver assim nos embrutece num piscar de olhos. Eu sei que ela (nem ouso dizer seu nome, de tão ambígua – pois abstrata e efetiva ao mesmo tempo) nos coloca lassos, burros, impunemente vencidos, aos circuitos dos mornos desejos de um tédio invariável e virulento – porque é fácil resignar-se com ele. Ela nos coloca, na falta de cuidado, ah, nos coloca.

   Na cozinha as mulheres falam e assam e não se preocupam tanto. Não como nós nos temos preocupado: sempre encarando friamente os roxos esgares de se estar vivo; sabedores do corpo, de sua lenta derrelição, sabedores das horas se entredevorando mordazmente durante o dia, até à noite, quando se fecham entre frios estribilhos e cinco, ou dez – nos agitados temperamentos alheios -, resfolegares do maquinário nos calçamentos.

   E, papai!, ainda que cerremos as cortinas com a certeza (corroída) de que amanhece logo em seguida, nos dedicamos sem querer a essa casta de perguntas deletérias vinda de lá, onde se abrigam as mais infinitas inquietações. E a garantia? Quem me dá?

   Brilhará, mesmo, um sol, logo, tão se esqueça dos ponteiros e da obstinação por sobre a espera, no lá fora?

   Tu vês? Tu vês como são presunçosos, estes, daí, do teu lado, que servem à tua mesa, esticam teus lençóis os livrando dos secos sonhos que das tuas peles se descolaram? Tão ousados, a me (a nos) fecharem as portas, veementemente, sem hesitação, enquanto chuvisca. Eu os amo quando se nomeiam desprezíveis em suas toscas brincadeiras.



onde está Wally?
February 2, 2009, 11:40 pm
Filed under: das neuroses, devaneios, di valore, outrem



prêt-à-porter
January 20, 2009, 2:57 am
Filed under: balacas filosóficas, di valore, novidades

essa semana estou aqui, em um projeto especial do Fellipe



Nietzsche
January 2, 2009, 4:29 pm
Filed under: di valore, novidades, outrem

PARA O ANO NOVO. (…) Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiro ao coração — que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: — assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. “Amor fati”: seja esse, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!

A Gaia Ciência, § 276



noite #1
December 28, 2008, 2:32 am
Filed under: di valore, inefáveis

champanhe morno, cigarreira cheia, meia luz e billie holiday é tudo que eu preciso agora.



tu-relógio, tu-tempo
November 20, 2008, 1:54 am
Filed under: crí(p)ticas, di valore

   Talvez eu finalmente saiba do que você é feito. De uma carne desmotivada, cuja curta história é mais triste que alegre, resultado de todos esses anos pelos quais ela foi se levando, aos tropeços, ora nos péssimos calçamentos, ora nos luzidios pisos de mármore, a fofa grama ou a poeirenta terra vermelha. E a animar parcamente esse amontoado, não muito farto, não muito alto, de pele, osso e músculo uns rápidos frêmitos, misturas coloidais, homogêneas, de eletricidade orgânica, uma poesia encarceirada e uns chumaços de alma, meio blue, meio egoística, meio da virada, meio qualquer-coisa-tanto-faz. E aí, jogado, esse corpo, ao som de mais uma sad song, inundado na fumaça de mais um cigarro, na presença aterradoramente auto-reflexiva dos chumaços espevitados que o habitam, esse corpo se depara com a sensação nunca antes experenciada da indecisão absoluta: a vertigem. O imobilizante afundo os pés diante desse abismo ou nele vorazmente me precipito?

   O engraçado dessas linhas é que na presença de outro corpo, de outros tantos corpos – como habitualmente essa tua carne vem fazendo -, a vertigem se ameniza, é esquecida por uns míseros segundos. Mas o pêndulo que te anima, grande relógio, teima em riscar a atmosfera cindida dessa indecisa condição.



paolo conte
October 26, 2008, 5:29 pm
Filed under: di valore, outrem

Via con me