Beribéricas


vicissitudes do espetáculo
February 8, 2009, 10:35 pm
Filed under: aventura interpretativa, balacas filosóficas, devaneios

   In the room woman come and go talking about Miguel Angelo.  A passagem de Eliot atualiza de forma monumental aquilo que fremita debaixo do discurso do final de semana – enquanto compromissos são desmarcados, enquanto o champanhe (para uma taça só) gela  ao lado do pacote de ervilhas, enquanto as manias e as excentricidades são suscitadas calorosamente ao som de Tchaikovsky.

   O final de semana não é sabático para o homem com alguma perspicácia filosófica, ou melhor, para não incorrer no erro de empregar termos alheios infrutiferamente, o final de semana não é sabático para o homem que teima, sabedor do preço e das mazelas do resultado, em pensar. Aquilo que sob o crivo da maioria é considerado o descanso, a leveza, a bonanza, ah, a merecida bonanza, é sentido por alguns como arduamente pesado, como parte de uma derrelição irrevogável.

   “Sinto-me desfazer”, “Sinto-me dissolver (volitivo que sou, expressionista que sou…)”. Justa sensação do sair de cena, do colocar-se à parte; o destaque em arte é exatamente aquilo que: é o mesmo que o resto, pelo menos no passado, pelo menos no que compreende um átimo, anterior, já ido; e é diferente do resto, pelo menos no agora, no tempo discursivo, porque caminhou enquanto toda casta pictórica permanecia imobilizada.

   Por que o faço? Por que empreendo, como já foi dito, a inumana (será?) tarefa de destacar-me? Sobretudo, porque entendo meu papel, enquanto sujeito, enquanto cindido, enquanto espectador e personagem do espetáculo. E a tristeza do processo? E o luto que advém dele e que se exprime no desejar ‘nada’, querer fazer ‘nada’? Solidão em destacar-se, compaixão em enxergar o restante, ainda imóvel, ainda insuspirável. Um suspiro, um sussuro e eu me destaco

   Ao destacar-me as mulheres falam de mim, as que invento, as que me rodeiam (e que invento também). Ao destacar-me Tchaikovsky é meu anteparo, e o mundo? O mundo é objeto do meu visível. E eu (cartesianos, sejamos sempre cartesianos) sou o quê assim tão destacado?

   A secretária seria perfeita, se não fosse engendrada. Engendrada ela é somente um louvável efeito estético ou um útil efeito comunicativo “Vejam! Eu estou me destacando, eu estou fazendo aquilo…”.

   O caso está compreendido muitíssimo bem se for enxergado pelas mesmas lentes que enxergaram as demandas esquizofrênicas de Van Gogh ou as inquietações alimentícias de Virginia Woolf. Mister é focalizá-lo, como se faz com uma lupa, na segurança aristotélica do bem mesurado: distante o bastante para não queimar aquilo que é enfocado e perto o suficiente para aumentar cada espaço que, à olho nú, se oculta sob o registro do recôndito.

  

  



prêt-à-porter
January 20, 2009, 2:57 am
Filed under: balacas filosóficas, di valore, novidades

essa semana estou aqui, em um projeto especial do Fellipe



descartes
October 15, 2008, 10:11 pm
Filed under: balacas filosóficas, outrem

     Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser, talvez, que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.

(Meditações)



exercício de conjugar
October 4, 2008, 9:05 pm
Filed under: balacas filosóficas