-Acho que vou passar a noite em claro, estudando, lendo até não aguentar mais, mas aguentando. Sabe?
-Sei, claro que sei. É bom, às vezes.
-E depois, quando a noite estiver terminando, vou ficar observando o dia nascer enquanto fumo um cigarro, bebo café e escuto Händel.
-Parece uma cena linda.
-Claro que é. Eu preciso sempre de cenas belas. Tu já sabe disso… Eu me rodeio de cenas lindas porque só assim viver se torna interessante. Eu estetizo a minha própria vida. Por isso que eu nunca consegui escrever literatura decente ou nunca consegui pintar um bom quadro. A minha vida é o meu suporte. Viver toma todo o meu tempo.
-É uma forma muito bonita de se ver as coisas, eu acho. Mas o suporte, um dia, não vai existir mais.
-Claro que não vai. Ele não é perene, tu tens toda razão. Mas isso faz com que o meu empreendimento seja mais bonito: ele vai se volatilizar um dia, vai deixar de existir. É um gesto que acaba.
-Sim, é isso.
-Obviamente não sempre as cenas belas, há cenas dantescas também: convenhamos… Mas quem disse que a arte está subsumida só sob o escopo do belo?
-É, tens razão. Veja A Balada dos Enforcados, ou as gravuras do Goya. Então é isso, tu é um artista, no fim das contas.
-É, eu sou. Um artista diferente, mas eu sou.