Beribéricas


S.
April 6, 2009, 3:12 am
Filed under: das neuroses, inefáveis, novidades

Eu não devia te revelar isso, mas essa chuva caindo larga, esse uísque que desce fácil, o abajur bruxuleando… essas coisas colocam qualquer um putamente comovido com o estado de tudo, com a falta, a indecisão e, principalmente, com o que teima em ficar sem nome.

Por que é tão normal que a folha caía, ou o cigarro acabe, ou que as crianças brinquem? Nunca entendi muito bem isso de as coisas serem tão comuns, passado alguns anos e certo embrutecimento.

O que faremos afinal, S.? A resposta vem fácil se pensarmos logicamente. Mas nenhum de nós parece estar muito seguro de como esses passos tão abstratos funcionam.

Ontem, voltando pra casa, eu encontrei novamente aquele senhor que me abordou no café, mês passado. Conversava, com amigos talvez, ou talvez passasse por ali e tenha, muito audacioso, se permitido sentar com os desconhecidos, como fez comigo, mês passado. Talvez algum deles fosse da família, talvez fosse casado com algum dos dois e gostasse do flagelo, como eu gostei do flagelo, no mês passado.

Eu não sei, S.. Por quê? Eu que sempre tive tanta certeza? Eu, o atrevido, a tocar os pés pelas mãos, e a andar sempre com o peito aberto, todo entranha, todo exposto, feito uma ostra a dar-se pras funduras descontínuas.

Eu já te disse isso antes, repito, reitero: meu coração está aí para quem quiser morder. Olha!, ele é tão carnudo, tão cheio de si, bate tão ritmado entre épuras coaguladas. Não me incomodam aqueles que olham e rejeitam, nojo ou vegetarianismo, medo ou saciedade. Me incomoda que peguem nele, e que apalpem, luxuriosos, apertando nos montículos cavernosos ou sentindo as arroxeadas palpitações, como tu tens feito. Porra, eu não tenho muita paciência pra preliminares dessa ordem.

“Literatura e Erotismo”, “Leremos Bataille…”, “Lacan e Freud também”: Olha que próspero. Vão dizer o quê? Que se escreve com o corpo? Que se lê com o corpo? Que no ato há a experimentação do contínuo, por dois sujeitos descontínuos? Que se foda.

Escuta, o que faremos afinal, S.? É continuar com esse jogo empatado, entre almíscar, suor, a solidão tão convencional e as elucubrações mais ou menos peculiares de entender os sujeitos e suas motivações… Hnn… Que merda, hein. De que adianta estudar os sujeitos, o comportamento, o inconsciente (tanto faz, ao cabo é tudo a mesma coisa) sem saber se mexer, sem saber pensar ou tomar uma decisão.

Vai ficar tudo em família. Quem sabe uma família nova? Que te parece?

Da concretude à abstração. Da concretude à abstração.

Olhasse os Bosch que te mandei? São lindos, né?!

Vou atender o telefone, já venho.


1 Comment so far
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Eu já voltei aqui três vezes pra comentar esse texto e não sei o que dizer.

Comment by André




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