Beribéricas


que ousadia! me fecharem as portas enquanto chuvisca
March 9, 2009, 1:19 am
Filed under: das neuroses, devaneios, di valore

    Papai, que dor. Eu sei bem

   que viver assim nos embrutece num piscar de olhos. Eu sei que ela (nem ouso dizer seu nome, de tão ambígua – pois abstrata e efetiva ao mesmo tempo) nos coloca lassos, burros, impunemente vencidos, aos circuitos dos mornos desejos de um tédio invariável e virulento – porque é fácil resignar-se com ele. Ela nos coloca, na falta de cuidado, ah, nos coloca.

   Na cozinha as mulheres falam e assam e não se preocupam tanto. Não como nós nos temos preocupado: sempre encarando friamente os roxos esgares de se estar vivo; sabedores do corpo, de sua lenta derrelição, sabedores das horas se entredevorando mordazmente durante o dia, até à noite, quando se fecham entre frios estribilhos e cinco, ou dez – nos agitados temperamentos alheios -, resfolegares do maquinário nos calçamentos.

   E, papai!, ainda que cerremos as cortinas com a certeza (corroída) de que amanhece logo em seguida, nos dedicamos sem querer a essa casta de perguntas deletérias vinda de lá, onde se abrigam as mais infinitas inquietações. E a garantia? Quem me dá?

   Brilhará, mesmo, um sol, logo, tão se esqueça dos ponteiros e da obstinação por sobre a espera, no lá fora?

   Tu vês? Tu vês como são presunçosos, estes, daí, do teu lado, que servem à tua mesa, esticam teus lençóis os livrando dos secos sonhos que das tuas peles se descolaram? Tão ousados, a me (a nos) fecharem as portas, veementemente, sem hesitação, enquanto chuvisca. Eu os amo quando se nomeiam desprezíveis em suas toscas brincadeiras.


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“E a garantia? Quem me dá?”(2)

Como amamos os nossos e a nossa carne!…

Comment by André




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