Papai, que dor. Eu sei bem
que viver assim nos embrutece num piscar de olhos. Eu sei que ela (nem ouso dizer seu nome, de tão ambígua – pois abstrata e efetiva ao mesmo tempo) nos coloca lassos, burros, impunemente vencidos, aos circuitos dos mornos desejos de um tédio invariável e virulento – porque é fácil resignar-se com ele. Ela nos coloca, na falta de cuidado, ah, nos coloca.
Na cozinha as mulheres falam e assam e não se preocupam tanto. Não como nós nos temos preocupado: sempre encarando friamente os roxos esgares de se estar vivo; sabedores do corpo, de sua lenta derrelição, sabedores das horas se entredevorando mordazmente durante o dia, até à noite, quando se fecham entre frios estribilhos e cinco, ou dez – nos agitados temperamentos alheios -, resfolegares do maquinário nos calçamentos.
E, papai!, ainda que cerremos as cortinas com a certeza (corroída) de que amanhece logo em seguida, nos dedicamos sem querer a essa casta de perguntas deletérias vinda de lá, onde se abrigam as mais infinitas inquietações. E a garantia? Quem me dá?
Brilhará, mesmo, um sol, logo, tão se esqueça dos ponteiros e da obstinação por sobre a espera, no lá fora?
Tu vês? Tu vês como são presunçosos, estes, daí, do teu lado, que servem à tua mesa, esticam teus lençóis os livrando dos secos sonhos que das tuas peles se descolaram? Tão ousados, a me (a nos) fecharem as portas, veementemente, sem hesitação, enquanto chuvisca. Eu os amo quando se nomeiam desprezíveis em suas toscas brincadeiras.
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“E a garantia? Quem me dá?”(2)
Como amamos os nossos e a nossa carne!…
Comment by André March 12, 2009 @ 12:09 pm