agora; que é chegada a hora.
quando o tempo repousa as mãos no fim, encenando em gestos delicados o it’s time. E então, na apreensão mais apurada das coisas, como não imaginar (pelo menos nessa vez) que as expectativas e os sonhados sistemas deram tudo aquilo o que poderiam dar? E que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa? Mas talvez seja o caso de não escolher e num completo imobilismo (que já presupõe ficar) tentar tudo outra vez – e será que tenho, realmente, o poder de futricar no que se esquece?
e agora, depois de parado, depois de ter certeza de que esse não é o percurso, depois de ter pela primeira vez me virado e alterado todo esquema, depois de ter sentido (também pela primeira) que é chegada a hora de gastar as noites como se gasta dinheiro em casacos novos (sem aparente culpa, sem aparente compromisso com o que quer que seja, sem ter ruminado as consequências por mais de cinco segundos) – depois de tudo isso só consigo constatar, pateticamente, que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa. E será que ainda percebo e compreendo e posso demonstrar (a vós, que teimam em carcomer essas palavras) que finalmente compreendo e que, para tanto, um dia percebi aleatoriamente os interstícios e os sinais que se escondiam? E que hoje os percebo incessantemente porque já compreendi?
sim, é claro; me dizem doutores em suas cuidadosas e pertinentes colocações. E me diz o mesmo, com calor e com simplicidade, a manhã de todo dia se derramando pelas cortinas claras. Mas e agora? que não é manhã, nem se estica a tarde, nem se apaga a noite, e agora? onde isso tudo, essa lógica sazonal de giros e movimentos não faz mais sentido? agora, quando tudo o que importa são os olhos olhando para esse agora e vendo eles mesmos, reduplicados, se enxergando – e avisando: olhe esses sinais com mais cautela, com mais demora.
são as velas que se apequenam enquanto ardem, são as músicas que vão pouco a pouco se engolindo, é o corpo que a cada dia murcha e se esvazia.
e agora, tendo constatado cada importante colocação, ficou tão fácil pensar no que foi dito quando mantenho dentro e não engendro em palavras. E agora, quando eu me vejo rindo, rindo muito mais alto e muito mais forte tanto mais me afundo em mim. E agora, que eu vejo, que eu reconheço a única coisa que eu neguei e encarcerei melancolicamente. E agora eu sei, o que fazer, se fico ou se vou; porque sou eu que decido.
I’m wired to the world
That’s how I know everything
I’m super brain
That’s how they made me
In the room woman come and go talking about Miguel Angelo. A passagem de Eliot atualiza de forma monumental aquilo que fremita debaixo do discurso do final de semana – enquanto compromissos são desmarcados, enquanto o champanhe (para uma taça só) gela ao lado do pacote de ervilhas, enquanto as manias e as excentricidades são suscitadas calorosamente ao som de Tchaikovsky.
O final de semana não é sabático para o homem com alguma perspicácia filosófica, ou melhor, para não incorrer no erro de empregar termos alheios infrutiferamente, o final de semana não é sabático para o homem que teima, sabedor do preço e das mazelas do resultado, em pensar. Aquilo que sob o crivo da maioria é considerado o descanso, a leveza, a bonanza, ah, a merecida bonanza, é sentido por alguns como arduamente pesado, como parte de uma derrelição irrevogável.
“Sinto-me desfazer”, “Sinto-me dissolver (volitivo que sou, expressionista que sou…)”. Justa sensação do sair de cena, do colocar-se à parte; o destaque em arte é exatamente aquilo que: é o mesmo que o resto, pelo menos no passado, pelo menos no que compreende um átimo, anterior, já ido; e é diferente do resto, pelo menos no agora, no tempo discursivo, porque caminhou enquanto toda casta pictórica permanecia imobilizada.
Por que o faço? Por que empreendo, como já foi dito, a inumana (será?) tarefa de destacar-me? Sobretudo, porque entendo meu papel, enquanto sujeito, enquanto cindido, enquanto espectador e personagem do espetáculo. E a tristeza do processo? E o luto que advém dele e que se exprime no desejar ‘nada’, querer fazer ‘nada’? Solidão em destacar-se, compaixão em enxergar o restante, ainda imóvel, ainda insuspirável. Um suspiro, um sussuro e eu me destaco
Ao destacar-me as mulheres falam de mim, as que invento, as que me rodeiam (e que invento também). Ao destacar-me Tchaikovsky é meu anteparo, e o mundo? O mundo é objeto do meu visível. E eu (cartesianos, sejamos sempre cartesianos) sou o quê assim tão destacado?
A secretária seria perfeita, se não fosse engendrada. Engendrada ela é somente um louvável efeito estético ou um útil efeito comunicativo “Vejam! Eu estou me destacando, eu estou fazendo aquilo…”.
O caso está compreendido muitíssimo bem se for enxergado pelas mesmas lentes que enxergaram as demandas esquizofrênicas de Van Gogh ou as inquietações alimentícias de Virginia Woolf. Mister é focalizá-lo, como se faz com uma lupa, na segurança aristotélica do bem mesurado: distante o bastante para não queimar aquilo que é enfocado e perto o suficiente para aumentar cada espaço que, à olho nú, se oculta sob o registro do recôndito.
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Mais uma vez no Fellipe, por engenho da engenhosa (dã) Ivana…
Aconteceu. Ele tinha sim uma melancolia por detrás dos olhos e, diariamente, mais que todos, muito mais que todos, experimentava o tédio, o ilustre tédio da vida. As razões não interessam, elas não suprimem a grande crueldade, elas não reencenam o espetáculo daqueles dias. E que belo espetáculo, que pacto fáustico que selamos. Só quem amou, custosamente, quem amou sem nunca esperar um olhar, mesmo que tristonho, em troca, sabe. Só quem amou sabe dessa verdade, que espocava constantemente na sua presença.
Na minha casa os abajures continuam ardendo, noite adentro, longa noite adentro. A novidade são as cortinas. Como foi doído levantar essas cortinas sozinho. Parece-me que elas foram colocadas no momento certo. Parece-me que se ele ainda estivesse sob o risco de ser convocado – como prometeu – a subí-las, então ele não teria as colocado ali no alto, ou eu não teria lhe convocado pra essa tarefa. Parece-me, agora, que colocar as cortinas, muito sábias, muito pertinentes, porque não cobrem tudo nem mostram tudo, mas possibilitam ‘entrever’, parece-me agora que colocá-las foi uma tarefa que tive que fazer sozinho, com esta maldita mão dentro do meu peito a torcer-me os ocos e os cheios. Deixei um alfinete numa cortina, pra que eu não me esqueça, pra que tudo se presentifique belamente. Porque esquecer, como muitos têm tentado fazer, é de uma estupidez que me devasta e me deixa com ânsias de pensar em verbalizar, em meio às caras e os esgares que me encontram nas ruas elegantes, mil impropérios cujos conteúdos deletérios assustariam meus pais, levando-os a se questionarem imediatamente o tipo de educação que me legaram. Até isso eu fico tentado a fazer, por ele.
Aconteceu. Ele tinha, sim!, que passar por nós assim ligeiro e às gargalhadas, dando um ponto, com fio grosso, no murcho coração de cada um pra, depois, agora (o tempo… tanto faz – e isso eu aprendi com ele, não com McTaggartt), pra puxar bem firme, bem forte, sei lá de onde, sei lá de que altura ou de que fundura, fazendo doer um pouco. Ele tinha: dói, mas tudo foi tão asperamente bonito, tão desajeitadamente bom…
“E não esqueço que deitei em tua cama em teu berço: Eu sei teu preço, eu te conheço, meu oportuno herói”