-Acho que vou passar a noite em claro, estudando, lendo até não aguentar mais, mas aguentando. Sabe?
-Sei, claro que sei. É bom, às vezes.
-E depois, quando a noite estiver terminando, vou ficar observando o dia nascer enquanto fumo um cigarro, bebo café e escuto Händel.
-Parece uma cena linda.
-Claro que é. Eu preciso sempre de cenas belas. Tu já sabe disso… Eu me rodeio de cenas lindas porque só assim viver se torna interessante. Eu estetizo a minha própria vida. Por isso que eu nunca consegui escrever literatura decente ou nunca consegui pintar um bom quadro. A minha vida é o meu suporte. Viver toma todo o meu tempo.
-É uma forma muito bonita de se ver as coisas, eu acho. Mas o suporte, um dia, não vai existir mais.
-Claro que não vai. Ele não é perene, tu tens toda razão. Mas isso faz com que o meu empreendimento seja mais bonito: ele vai se volatilizar um dia, vai deixar de existir. É um gesto que acaba.
-Sim, é isso.
-Obviamente não sempre as cenas belas, há cenas dantescas também: convenhamos… Mas quem disse que a arte está subsumida só sob o escopo do belo?
-É, tens razão. Veja A Balada dos Enforcados, ou as gravuras do Goya. Então é isso, tu é um artista, no fim das contas.
-É, eu sou. Um artista diferente, mas eu sou.
Hoje é domingo. Quase meia noite. A noite me olha, e eu olho ela: Somos dois apaixonados.
Sobre a escrivaninha chinesa uma Perrier vazia, o poeirento Aristóteles aberto e o cinzeiro cheio.
-Deus pode ser inquirido?
-Não, Ele não pode.
“Eis-me aqui, um velho em pleno mês de seca”. Eliot est arrivé.
Escuto uma criança barulhando, ela balbucia coisas incompreensíveis. Agora ela desce devagar. A escada é de mármore preto. No andar de cima há luz, mas embaixo não há; conforme ela desce, o escuro a engole. Ela gosta do escuro – o escuro que não gosta dela.
E também o diabo nos visita. Esse estranho, esse estrangeiro. Não bate para entrar, não é dado à cerimônias. Abre a porta e vai entrando. No mais íntimo e no mais próprio. Aqueles dois olhos postos assim: embebidos em virulenta dileção e queda.
Encontro quietude no coração de um gerânio. Com meus dedos o abro gentilmente. É de uma doçura infinita, como o Impromptu IV de Schubert, como quando cheiro minha própria pele, como o balão que paira perdido entre os telhados.
Seja perspicaz: toda imagem tem seu negativo, e tudo aquilo que ela não mostra também faz parte dela.
Vou fazer o seguinte: vou me enrolar bem quieto naqueles cobertores e, com sorte, já que se acabaram os calmantes, vou me esquecer que eu sou eu, e que não posso nunca ser outra coisa, e vou descansar por algumas horas.
Dos enfrentamentos, babe? Conheço todos. Maldita sede que me coloca suplicante, aos pés disso, e que me impele aos espaços mais estranhos, aos espaços mais urgentes, aos cadavéricos entreatos, à leveza. E por essa razão, não serão algumas horas perdidas (será que podemos chamá-las assim?) que vão engatilhar uma pandemia de como-perdi-tempo’s dentro do meu cérebro. Eu gosto de viver. Tu não sabia?
Vamos fazer o seguinte também (depois de um sono bem roxo, como se eu me espraiasse no púrpura): vamos continuar por aí, soerguendo a corpulência miserável que pouco a pouco se esfria e se encolhe, vamos continuar vomitando o mesmo palavrório descabido enquanto pensamos em coxas e em buracos tão distintos.
Me despeço entre (vejam só) heidegguerianismos (bobos? descabidos? tão pululantemente emergentes? não sei.): “o homem habita o mundo como poeta.”
O velho diz, porque o velho sabe.
Eu? Eu não sei; eu não sei, Isabel! (era isso?)
Há um tempo atrás eu costumava me deitar serenamente no às avessas do que eu pensava de mim. E, como Proust, costumava deitar-me cedo. Fixava os caleidoscópios também.
Como é difícil moldar esses blocos meio desmaiados, que chamamos pensamentos, sobre finos invólucros verbais – tudo, tudo para que correspondam tão fielmente um ao outro, para que se comuniquem numa simbiose necessária, numa ordem divina para o sujeito. Coisas assombrosas, os pensamentos.
E lá se vão vinte e tantos anos de tentativas mais ou menos dignas; sempre na ânsia extremada de fazer com que uma coisa se relacione bem com a outra e de fazer com que a coerência, como hoje a compreendo, fremitasse na inconsiência mais inocente de cada palavra saída da minha boca.
Quisera eu recuperar uma inocência, há muito acidentalmente quebrada, que me impelia com esperança às pessoas e me alteava à cata das mais interessantes fantasias e que também justificava o meu assombro adolescente frente a um “o supremo paradoxo de todo pensamento é tentar descobrir algo que o pensamento não pode pensar” ou a uma evisceração baconiana.
Estarei estragado? Por que o grilo não dá folga? Ou a pedra seca não refresca? E por que as hordas encapuzadas continuam nos perseguindo? Imagens rotas realmente se empilham – incontáveis. Maldito Eliot.
Eu não devia te revelar isso, mas essa chuva caindo larga, esse uísque que desce fácil, o abajur bruxuleando… essas coisas colocam qualquer um putamente comovido com o estado de tudo, com a falta, a indecisão e, principalmente, com o que teima em ficar sem nome.
Por que é tão normal que a folha caía, ou o cigarro acabe, ou que as crianças brinquem? Nunca entendi muito bem isso de as coisas serem tão comuns, passado alguns anos e certo embrutecimento.
O que faremos afinal, S.? A resposta vem fácil se pensarmos logicamente. Mas nenhum de nós parece estar muito seguro de como esses passos tão abstratos funcionam.
Ontem, voltando pra casa, eu encontrei novamente aquele senhor que me abordou no café, mês passado. Conversava, com amigos talvez, ou talvez passasse por ali e tenha, muito audacioso, se permitido sentar com os desconhecidos, como fez comigo, mês passado. Talvez algum deles fosse da família, talvez fosse casado com algum dos dois e gostasse do flagelo, como eu gostei do flagelo, no mês passado.
Eu não sei, S.. Por quê? Eu que sempre tive tanta certeza? Eu, o atrevido, a tocar os pés pelas mãos, e a andar sempre com o peito aberto, todo entranha, todo exposto, feito uma ostra a dar-se pras funduras descontínuas.
Eu já te disse isso antes, repito, reitero: meu coração está aí para quem quiser morder. Olha!, ele é tão carnudo, tão cheio de si, bate tão ritmado entre épuras coaguladas. Não me incomodam aqueles que olham e rejeitam, nojo ou vegetarianismo, medo ou saciedade. Me incomoda que peguem nele, e que apalpem, luxuriosos, apertando nos montículos cavernosos ou sentindo as arroxeadas palpitações, como tu tens feito. Porra, eu não tenho muita paciência pra preliminares dessa ordem.
“Literatura e Erotismo”, “Leremos Bataille…”, “Lacan e Freud também”: Olha que próspero. Vão dizer o quê? Que se escreve com o corpo? Que se lê com o corpo? Que no ato há a experimentação do contínuo, por dois sujeitos descontínuos? Que se foda.
Escuta, o que faremos afinal, S.? É continuar com esse jogo empatado, entre almíscar, suor, a solidão tão convencional e as elucubrações mais ou menos peculiares de entender os sujeitos e suas motivações… Hnn… Que merda, hein. De que adianta estudar os sujeitos, o comportamento, o inconsciente (tanto faz, ao cabo é tudo a mesma coisa) sem saber se mexer, sem saber pensar ou tomar uma decisão.
Vai ficar tudo em família. Quem sabe uma família nova? Que te parece?
Da concretude à abstração. Da concretude à abstração.
Olhasse os Bosch que te mandei? São lindos, né?!
Vou atender o telefone, já venho.
Papai, que dor. Eu sei bem
que viver assim nos embrutece num piscar de olhos. Eu sei que ela (nem ouso dizer seu nome, de tão ambígua – pois abstrata e efetiva ao mesmo tempo) nos coloca lassos, burros, impunemente vencidos, aos circuitos dos mornos desejos de um tédio invariável e virulento – porque é fácil resignar-se com ele. Ela nos coloca, na falta de cuidado, ah, nos coloca.
Na cozinha as mulheres falam e assam e não se preocupam tanto. Não como nós nos temos preocupado: sempre encarando friamente os roxos esgares de se estar vivo; sabedores do corpo, de sua lenta derrelição, sabedores das horas se entredevorando mordazmente durante o dia, até à noite, quando se fecham entre frios estribilhos e cinco, ou dez – nos agitados temperamentos alheios -, resfolegares do maquinário nos calçamentos.
E, papai!, ainda que cerremos as cortinas com a certeza (corroída) de que amanhece logo em seguida, nos dedicamos sem querer a essa casta de perguntas deletérias vinda de lá, onde se abrigam as mais infinitas inquietações. E a garantia? Quem me dá?
Brilhará, mesmo, um sol, logo, tão se esqueça dos ponteiros e da obstinação por sobre a espera, no lá fora?
Tu vês? Tu vês como são presunçosos, estes, daí, do teu lado, que servem à tua mesa, esticam teus lençóis os livrando dos secos sonhos que das tuas peles se descolaram? Tão ousados, a me (a nos) fecharem as portas, veementemente, sem hesitação, enquanto chuvisca. Eu os amo quando se nomeiam desprezíveis em suas toscas brincadeiras.
agora; que é chegada a hora.
quando o tempo repousa as mãos no fim, encenando em gestos delicados o it’s time. E então, na apreensão mais apurada das coisas, como não imaginar (pelo menos nessa vez) que as expectativas e os sonhados sistemas deram tudo aquilo o que poderiam dar? E que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa? Mas talvez seja o caso de não escolher e num completo imobilismo (que já presupõe ficar) tentar tudo outra vez – e será que tenho, realmente, o poder de futricar no que se esquece?
e agora, depois de parado, depois de ter certeza de que esse não é o percurso, depois de ter pela primeira vez me virado e alterado todo esquema, depois de ter sentido (também pela primeira) que é chegada a hora de gastar as noites como se gasta dinheiro em casacos novos (sem aparente culpa, sem aparente compromisso com o que quer que seja, sem ter ruminado as consequências por mais de cinco segundos) – depois de tudo isso só consigo constatar, pateticamente, que se chegou num momento no qual nada além do será que fico ou será que vou importa. E será que ainda percebo e compreendo e posso demonstrar (a vós, que teimam em carcomer essas palavras) que finalmente compreendo e que, para tanto, um dia percebi aleatoriamente os interstícios e os sinais que se escondiam? E que hoje os percebo incessantemente porque já compreendi?
sim, é claro; me dizem doutores em suas cuidadosas e pertinentes colocações. E me diz o mesmo, com calor e com simplicidade, a manhã de todo dia se derramando pelas cortinas claras. Mas e agora? que não é manhã, nem se estica a tarde, nem se apaga a noite, e agora? onde isso tudo, essa lógica sazonal de giros e movimentos não faz mais sentido? agora, quando tudo o que importa são os olhos olhando para esse agora e vendo eles mesmos, reduplicados, se enxergando – e avisando: olhe esses sinais com mais cautela, com mais demora.
são as velas que se apequenam enquanto ardem, são as músicas que vão pouco a pouco se engolindo, é o corpo que a cada dia murcha e se esvazia.
e agora, tendo constatado cada importante colocação, ficou tão fácil pensar no que foi dito quando mantenho dentro e não engendro em palavras. E agora, quando eu me vejo rindo, rindo muito mais alto e muito mais forte tanto mais me afundo em mim. E agora, que eu vejo, que eu reconheço a única coisa que eu neguei e encarcerei melancolicamente. E agora eu sei, o que fazer, se fico ou se vou; porque sou eu que decido.
