Beribéricas


dos diálogos #1
October 25, 2009, 12:02 am
Filed under: 1, crí(p)ticas, devaneios

-Acho que vou passar a noite em claro, estudando, lendo até não aguentar mais, mas aguentando. Sabe?

-Sei, claro que sei. É bom, às vezes.

-E depois, quando a noite estiver terminando, vou ficar observando o dia nascer enquanto fumo um cigarro, bebo café e escuto Händel.

-Parece uma cena linda.

-Claro que é. Eu preciso sempre de cenas belas. Tu já sabe disso… Eu me rodeio de cenas lindas porque só assim viver se torna interessante. Eu estetizo a minha própria vida. Por isso que eu nunca consegui escrever literatura decente ou nunca consegui pintar um bom quadro. A minha vida é o meu suporte. Viver toma todo o meu tempo.

-É uma forma muito bonita de se ver as coisas, eu acho. Mas o suporte, um dia, não vai existir mais.

-Claro que não vai. Ele não é perene, tu tens toda razão. Mas isso faz com que o meu empreendimento seja mais bonito: ele vai se volatilizar um dia, vai deixar de existir. É um gesto que acaba.

-Sim, é isso.

-Obviamente não sempre as cenas belas, há cenas dantescas também: convenhamos… Mas quem disse que a arte está subsumida só sob o escopo do belo?

-É, tens razão. Veja A Balada dos Enforcados, ou as gravuras do Goya. Então é isso, tu é um artista, no fim das contas.

-É, eu sou. Um artista diferente, mas eu sou.



dos pactos
October 5, 2009, 3:24 am
Filed under: devaneios, di valore, inefáveis

Hoje é domingo. Quase meia noite. A noite me olha, e eu olho ela: Somos dois apaixonados.

Sobre a escrivaninha chinesa uma Perrier vazia, o poeirento Aristóteles aberto e o cinzeiro cheio.

-Deus pode ser inquirido?

-Não, Ele não pode.

“Eis-me aqui, um velho em pleno mês de seca”. Eliot est arrivé.

Escuto uma criança barulhando, ela balbucia coisas incompreensíveis. Agora ela desce devagar. A escada é de mármore preto. No andar de cima há luz, mas embaixo não há; conforme ela desce, o escuro a engole. Ela gosta do escuro – o escuro que não gosta dela.

E também o diabo nos visita. Esse estranho, esse estrangeiro. Não bate para entrar, não é dado à cerimônias. Abre a porta e vai entrando. No mais íntimo e no mais próprio. Aqueles dois olhos postos assim: embebidos em virulenta dileção e queda.

Encontro quietude no coração de um gerânio. Com meus dedos o abro gentilmente. É de uma doçura infinita, como o Impromptu IV de Schubert, como quando cheiro minha própria pele, como o balão que paira perdido entre os telhados.

Seja perspicaz: toda imagem tem seu negativo, e tudo aquilo que ela não mostra também faz parte dela.



Bacon aos porcos! (Look, I’m so witty!)
August 4, 2009, 6:08 pm
Filed under: crí(p)ticas, das neuroses, devaneios, novidades

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Vou fazer o seguinte: vou me enrolar bem quieto naqueles cobertores e, com sorte, já que se acabaram os calmantes, vou me esquecer que eu sou eu, e que não posso nunca ser outra coisa, e vou descansar por algumas horas.

Dos enfrentamentos, babe? Conheço todos. Maldita sede que me coloca suplicante, aos pés disso, e que me impele aos espaços mais estranhos, aos espaços mais urgentes, aos cadavéricos entreatos, à leveza. E por essa razão, não serão algumas horas perdidas (será que podemos chamá-las assim?) que vão engatilhar uma pandemia de como-perdi-tempo’s  dentro do meu cérebro. Eu gosto de viver. Tu não sabia?

Vamos fazer o seguinte também (depois de um sono bem roxo, como se eu me espraiasse no púrpura): vamos continuar por aí, soerguendo a corpulência miserável que pouco a pouco se esfria e se encolhe, vamos continuar vomitando o mesmo palavrório descabido enquanto pensamos em coxas e em buracos tão distintos.

Me despeço entre (vejam só) heidegguerianismos (bobos? descabidos? tão pululantemente emergentes? não sei.): “o homem habita o mundo como poeta.”

O velho diz, porque o velho sabe.

Eu? Eu não sei; eu não sei, Isabel! (era isso?)



Hello Saferide
May 31, 2009, 5:02 pm
Filed under: das neuroses, novidades, outrem

Would you freak out if I said I like you?



Trusz e o desafio da estrutura
May 23, 2009, 4:06 pm
Filed under: crí(p)ticas, di valore, novidades

Há um tema recorrente à maioria das obras – principalmente aquelas compreendidas pelos desenhos e pelas fotografias: o galho, o ramo ressequido, o pedúnculo, a linha que rapidamente se ramifica explorando as mais diversas áreas do espaço pictórico, a linha que muitas vezes teima em ocupá-lo.

Há um manifesto exercício de experimentação da linha. A linha, aos poucos, compele a própria obra em um desafio formal da conquista do plano pictórico e compele a pessoa envolvida com ela em um desafio formal da conquista de ampliação da experiência estética.

É esse exercício que revela de imediato a qualidade das obras, comprovada pelos efeitos refletidos disparados na sensibilidade do contemplador.

Esses efeitos advém de dois aspectos. Tanto dos desenhos e das fotografias individuais, como da produção em sua totalidade.

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Os desenhos à primeira vista representam e sugerem algo do real, a ramificação táctil, relacionada à progressão íntima e organicamente determinada das coisas que crescem e que se destinam à estruturação de sua própria existência. É a idéia, e também a sensação, de estruturação que permitem à sensibilidade a conquista de um nível muito mais complexo de sugestão. O que é sugerido pela artista não se resume à figuração do ramo, do galho esqueletizado, mas se amplia e se complexifica sugerindo, dessa vez, a própria progressão do pensamento e do espírito, que também cresce e ordena a sua existência a partir da idéia de estrutura. Tudo que é esquelético é, por definição, estrutural. Trusz reconhece nos esquemas esqueléticos dos vegetais a correspondência abstrata do pensamento que, lentamente, congrega componentes simples para a formação de arcabouços mais complexos. Ponto, ponto, ponto, linha. Ao contemplador se interpõe o desafio, ao mesmo tempo sensível e racional, de sustentar a ambiguidade oriunda da noção de dupla sugestão (a de uma estrutura vegetal e a de uma estrutura intelectual) – o desafio em aliar potencialidades sensíveis às racionais para a sustentação de elaborações ambivalentes é típico da boa arte.

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As fotografias da mesma sequência também desafiam o contemplador; na perspectiva comum podem ser interpretadas e vivenciadas como fotos triviais de galhos e emaranhamentos, ou na perspectiva mais atenta e polissêmica podem ser interpretadas como imitações à l’envers, como ângulos do real capazes de representar objetos e conteúdos abstratos, como objetos comezinhos podem, quando capturados pelo apurado faro artístico, sugerir pensamentos, formas de pensamento e de organização formal da mente e da estruturação da interioridade tipicamente destituídos de carne, de correspondência material, tangível.

Toda a obra é, ao cabo, uma comprovação artística da progressão do pensamento, que se expande, se amplia.

Se quisermos experimentar, pelo menos uma sutil vibração, da delicada resistência das estruturas da artista, então somos obrigados a participar da elaboração poética que ela consegue consubstanciar no plano com suas requintadas linhas. O envolvimento da experiência do contemplador com a experiência do processo de concepção das obras qualifica em muito a produção, porque coloca artista e contemplador no mesmo estatuto, o de sujeitos racionais que ao se depararem com desafios conceituais e artísticos tendem a construir estruturas iniciais e sustentáculos originários propícios ao investimento afetivo posterior.

Trusz, com a particularidade de suas obras, dinamiza e conjuga – com suas progressões lineares, orgânicas e racionais – conteúdos diversos, cuja natureza é, na emergência do próprio movimento, estética.

Quanto à produção como um todo, essa também lança desafios intelectuais aos sujeitos que se preparam para contemplar. Ora os desenhos parecem remeter ao abstracionismo, ora reiteram a consistência representativa do real. Essa impossibilidade de enquadramento na tradição dispensa os investimentos e os tentames de classificação por parte dos sujeitos. A consciência desse pensamento desnecessário recoloca a própria produção, bem como as obras individuais, em foco novamente. Daí a impressão de que os desenhos e as fotografias não sossegam, mas teimam em voltar, teimam em reafirmar suas existências ambiguamente estruturais. Surpreende o contemplador que a obra, como um todo, apresente essa capacidade de nova dinamização estética, confirmada pelos efeitos refletidos. Enquanto os desenhos escapam às categorias tradicionais da arte, as fotografias – que usualmente correspondem de imediato como captura artística da realidade através da câmera – desvelam ao olhar atento às múltiplas interpretações sua capacidade de representar conteúdos efêmeros e impalpáveis.



Em benefício próprio
April 28, 2009, 12:54 am
Filed under: das neuroses, devaneios

Há um tempo atrás eu costumava me deitar serenamente no às avessas do que eu pensava de mim. E, como Proust, costumava deitar-me cedo. Fixava os caleidoscópios também.

Como é difícil moldar esses blocos meio desmaiados, que chamamos pensamentos, sobre finos invólucros verbais – tudo, tudo para que correspondam tão fielmente um ao outro, para que se comuniquem numa simbiose necessária, numa ordem divina para o sujeito. Coisas assombrosas, os pensamentos.

E lá se vão vinte e tantos anos de tentativas mais ou menos dignas; sempre na ânsia extremada de fazer com que uma coisa se relacione bem com a outra e de fazer com que a coerência, como hoje a compreendo, fremitasse na inconsiência mais inocente de cada palavra saída da minha boca.

Quisera eu recuperar uma inocência, há muito acidentalmente quebrada, que me impelia com esperança às pessoas e me alteava à cata das mais interessantes fantasias e que também justificava o meu assombro adolescente frente a um “o supremo paradoxo de todo pensamento é tentar descobrir algo que o pensamento não pode pensar” ou a uma evisceração baconiana.

Estarei estragado? Por que o grilo não dá folga? Ou a pedra seca não refresca? E por que as hordas encapuzadas continuam nos perseguindo? Imagens rotas realmente se empilham – incontáveis. Maldito Eliot.



véspera
April 18, 2009, 1:59 pm
Filed under: di valore

Takes two to tango.



S.
April 6, 2009, 3:12 am
Filed under: das neuroses, inefáveis, novidades

Eu não devia te revelar isso, mas essa chuva caindo larga, esse uísque que desce fácil, o abajur bruxuleando… essas coisas colocam qualquer um putamente comovido com o estado de tudo, com a falta, a indecisão e, principalmente, com o que teima em ficar sem nome.

Por que é tão normal que a folha caía, ou o cigarro acabe, ou que as crianças brinquem? Nunca entendi muito bem isso de as coisas serem tão comuns, passado alguns anos e certo embrutecimento.

O que faremos afinal, S.? A resposta vem fácil se pensarmos logicamente. Mas nenhum de nós parece estar muito seguro de como esses passos tão abstratos funcionam.

Ontem, voltando pra casa, eu encontrei novamente aquele senhor que me abordou no café, mês passado. Conversava, com amigos talvez, ou talvez passasse por ali e tenha, muito audacioso, se permitido sentar com os desconhecidos, como fez comigo, mês passado. Talvez algum deles fosse da família, talvez fosse casado com algum dos dois e gostasse do flagelo, como eu gostei do flagelo, no mês passado.

Eu não sei, S.. Por quê? Eu que sempre tive tanta certeza? Eu, o atrevido, a tocar os pés pelas mãos, e a andar sempre com o peito aberto, todo entranha, todo exposto, feito uma ostra a dar-se pras funduras descontínuas.

Eu já te disse isso antes, repito, reitero: meu coração está aí para quem quiser morder. Olha!, ele é tão carnudo, tão cheio de si, bate tão ritmado entre épuras coaguladas. Não me incomodam aqueles que olham e rejeitam, nojo ou vegetarianismo, medo ou saciedade. Me incomoda que peguem nele, e que apalpem, luxuriosos, apertando nos montículos cavernosos ou sentindo as arroxeadas palpitações, como tu tens feito. Porra, eu não tenho muita paciência pra preliminares dessa ordem.

“Literatura e Erotismo”, “Leremos Bataille…”, “Lacan e Freud também”: Olha que próspero. Vão dizer o quê? Que se escreve com o corpo? Que se lê com o corpo? Que no ato há a experimentação do contínuo, por dois sujeitos descontínuos? Que se foda.

Escuta, o que faremos afinal, S.? É continuar com esse jogo empatado, entre almíscar, suor, a solidão tão convencional e as elucubrações mais ou menos peculiares de entender os sujeitos e suas motivações… Hnn… Que merda, hein. De que adianta estudar os sujeitos, o comportamento, o inconsciente (tanto faz, ao cabo é tudo a mesma coisa) sem saber se mexer, sem saber pensar ou tomar uma decisão.

Vai ficar tudo em família. Quem sabe uma família nova? Que te parece?

Da concretude à abstração. Da concretude à abstração.

Olhasse os Bosch que te mandei? São lindos, né?!

Vou atender o telefone, já venho.



encore #2
March 13, 2009, 12:35 pm
Filed under: filhadaputagens

meu telefone não toca mais, c.g.



que ousadia! me fecharem as portas enquanto chuvisca
March 9, 2009, 1:19 am
Filed under: das neuroses, devaneios, di valore

    Papai, que dor. Eu sei bem

   que viver assim nos embrutece num piscar de olhos. Eu sei que ela (nem ouso dizer seu nome, de tão ambígua – pois abstrata e efetiva ao mesmo tempo) nos coloca lassos, burros, impunemente vencidos, aos circuitos dos mornos desejos de um tédio invariável e virulento – porque é fácil resignar-se com ele. Ela nos coloca, na falta de cuidado, ah, nos coloca.

   Na cozinha as mulheres falam e assam e não se preocupam tanto. Não como nós nos temos preocupado: sempre encarando friamente os roxos esgares de se estar vivo; sabedores do corpo, de sua lenta derrelição, sabedores das horas se entredevorando mordazmente durante o dia, até à noite, quando se fecham entre frios estribilhos e cinco, ou dez – nos agitados temperamentos alheios -, resfolegares do maquinário nos calçamentos.

   E, papai!, ainda que cerremos as cortinas com a certeza (corroída) de que amanhece logo em seguida, nos dedicamos sem querer a essa casta de perguntas deletérias vinda de lá, onde se abrigam as mais infinitas inquietações. E a garantia? Quem me dá?

   Brilhará, mesmo, um sol, logo, tão se esqueça dos ponteiros e da obstinação por sobre a espera, no lá fora?

   Tu vês? Tu vês como são presunçosos, estes, daí, do teu lado, que servem à tua mesa, esticam teus lençóis os livrando dos secos sonhos que das tuas peles se descolaram? Tão ousados, a me (a nos) fecharem as portas, veementemente, sem hesitação, enquanto chuvisca. Eu os amo quando se nomeiam desprezíveis em suas toscas brincadeiras.